De 11 a 13 de maio, eu e Letícia desfrutamos de uma rotina dos sonhos – ao menos, dos nossos sonhos: três dias de shows fantásticos em Goiânia, durante a 20ª edição do Bananada, festival de música alternativa que figura entre os mais importantes do gênero no Brasil.

Escalação mais eclética, impossível. Gilberto Gil, Pablo Vittar, Nação Zumbi, Rincon Sapiência, Carne Doce, Violins, Ema Stoned, DJ Marky, Baianasystem e mais uma cacetada de artistas, do país e de fora dele, fizeram uma verdadeira festa no Shopping Passeio das Águas, local onde o evento foi realizado. E já está batendo aquela saudade de tudo o que rolou.

Eu queria muito que os integrantes do movimento “Ah, mas não tem mais nada que preste na música brasileira” estivessem por lá. De preferência, em bando. Eles poderiam escolher, inclusive, qualquer um dos quatro palcos para assistir com os próprios olhos esse tipo de afirmação tola cair por terra.

A música brasileira vai bem, obrigado. Aliás, ali no Bananada, ela encontrou um povo que tratou dela da maneira que sempre deveria ter sido. Sem distinguir um “filho” do outro. O mesmo amor, a mesma dedicação a todos os rebentos, tanto na plateia quanto na organização.

O povo que sacudiu ao som denso e igualmente intenso de Giovani Cidreira foi o mesmo que aplaudiu ao espetáculo lisérgico e estranhamente pop – num ótimo sentido – do Boogarins; quem vibrou com as rimas espertíssimas do rapper Emicida também sorriu com os olhos fechados enquanto Niela desfilava sua deliciosa “sofrência swingada” – pode chamar de “twee pop à brasileira” que também tá valendo.

Teve Francisco El Hombre mostrando mais uma vez que, se Joe Strummer, vocalista e guitarrista do The Clash, tivesse morado na Bahia e conhecido o Axé, certamente sairia de lá com um grupo parecido. Não há nada mais punk e mais brasileiro do que esses caras e essa garota maravilhosa, Juliana Strassacapa, que por onde passam, deixam um rastro de alegria e fúria.

Falando em fúria, o que dizer de Molho Negro? Sabe aquela banda de rock que você estava esperando para chamar de sua? É essa. Triozão básico e porradeiro, mas sem deixar de incluir letras espertas e uma presença “de palco/de fora de palco” arrasadora em seus shows. Assim que acabou a apresentação da banda, fui direto para a barraquinha do merchan, para comprar os disquinhos dos caras… Todos os que estivessem disponíveis!

Daí, você vai comprar aquele cdzinho maroto pra crescer a coleção e fazer aquele carinho nos ouvidos e quem você encontra lá, ajudando na venda dos produtos? Marcelo Costa, do Scream & Yell. O jornalista, um dos que a gente mais admira no cenário cultural, foi, como já é de praxe, simpaticíssimo conosco. E ainda deu aquela dica/puxão de orelha fofo do qual NUNCA MAIS iremos nos esquecer. “Vocês vieram para um festival desses e não trouxeram nenhum material físico? Deveriam trazer, pô! Tá todo mundo aqui.”

Pois é, leitor/leitora que tem banda ou projeto musical: o digital está aí, o streaming veio com força e o Spotify é uma potência… Ainda assim, em eventos como esse é essencial levar aquele CD ou pen drive com o EPzão que você tanto estima e quer mostrar pro mundo – Olá, “Barbacena”! Olho no olho na hora de entregar a um artista, produtor ou profissional do meio que você admira? Fazer contato, networking e até amizades mais sólidas através de um digipack? Gostamos! E faremos, daqui para frente. Obrigado, Marcelo!

E como o Marcelo mesmo disse, estava todo mundo lá. Organizadores de outros festivais, músicos de bandas que não tocaram no evento, produtores, jornalistas da área… Geral na batalha, acreditando nessa movimentação que segue mais contínua do que nunca… Embora desconhecida por muitos. Engraçado isso, né?

Uma boa parte dos motoristas que nos levaram ao evento, na ida e na volta, não sabiam do que se tratava o festival. “Bananada? E é legal o evento?” ou “Esse festival deve ser bom, já que vocês vieram de Angra dos Reis para assistir” eram as principais tiradas formuladas por eles. Para você ver. Um festival que tem 20 anos de existência, reconhecido no país todo como uma potência em se tratando de eventos do tipo, segue como um corpo estranho para muitos que moram no lugar onde ele é realizado. Isso não te diz algo?

A nós, do Feito Café, sim. Goiânia está mais “longe demais das capitais” do que a gente, que vive a duas horas e meia do Rio de Janeiro. Ainda assim, quando uma galera perseverante e com “sangue de música nos olhos” quer fazer as coisas acontecerem, elas acontecem. Pode demorar, pode ser difícil pra cacete, pode aparecer todo o tipo de obstáculo no caminho… Mas nada pode parar o amor por aquilo que se escolheu para fazer na vida.

Ou melhor, por aquilo que escolheu você.

Tchau, Bananada! Até daqui a pouco, palcos Sympla ou Catuaba Selvagem!

(Por Hugo Oliveira)